Homens incompletos
Com uma perna das calças
Enrolada de qualquer jeito
E sem serventia
Coxas que terminam de repente
E sapatos encaixados
Em pernas postiças
Cidade de cicatrizes e cruzes
Antes eras florida
Agora tens mortos de guerra
Plantados nos teus jardins
Os que ainda sobram estão sós
Exaustos e famintos
Arrastam-se pelas ruas imundas
E afastam as moscas que voltam
Uma história com final infeliz
É a nossa
Abriga-nos debaixo desta terra
Vermelha e ainda amada
Tem pena de nós
Tira-nos de vez o funje de cada dia
E deixa-nos sangrar até à morte
De Luanda já não me lembro
Mas deve ter sido bonita

Absorvo o sangue do teu espírito
As nossas mãos estão frias
Como se eu nos tivesse tirado a vida
Mas o amor nunca morre
Só se esconde aqui no centro de mim
Batalho como alguém que pensa
Conhecer a alma das coisas
E como alguém que luta
Para recordar esse conhecimento
Mas falta sempre o que não recordo
Ganha-se a batalha e no chão
Soldados nossos mortos
Em morte paulatina
Perco cem mil homens num só
Exponho-me à carnificina por causa de ti
És o meu homem abstracto
Um ser inclinado que sorri
Do céu em queda livre

Aquele copo ali na mesa que enche e se esgota em ti
Gosto dele, bebe-me mais um pouco
Aquele teu andar que encurta as distâncias e te faz misturar o teu lugar com o meu
Gosto dele, bebe-me mais um pouco
Aquele teu braço que faz a tua mão aproximar-se dele e aproxima a tua boca de mim
Gosto dele, bebe-me mais um pouco nesse arriscado copo
Bendita assombrosa lucidez do álcool
Que te faz querer-me como eu te quero em água

Anjo ou deus,
Que me percorre a alma acariciando o corpo.
A ti só pedirei que me concedas o que nunca te vou exigir.
Porque tu és vadio…
Nem quieta nem inquieta espero pelo que o fado me trouxer
mas se me ergueres, erguerás ouro
porque sinto prazer, sinto dor
e porque para ti me dou como se nunca tivesse sofrido.
Mas tal como é, gozemos o momento.
Aguardando o amor como alguém que o conhece
E lhe reconhece os defeitos, os feitios.
E de longe vejo o cimo da montanha branca
e o sol que suave beija o gelo fazendo-o chorar de ventura.
Eu quero chorar com os teus beijos, Sol.
Quero que me descongeles, porque há muito tempo que sou geada.
Quero que me beijes os lábios solitários
Quero que me ocupes o corpo descampado
nas noites que caem doces sobre nós.
E quando o mar engolir a areia e arrastar com ele todos os castelos
Eu quero que o nosso subsista.
Porque tu és vício…
Dormente, a dormir sorrio.
Porque me pesas no corpo e me beijas a alma.
Gato vadio.

Há casas de botões
há casas tipo casulos
há casas tipo cápsulas
há casas tipo campas
há casas abandonadas
há casas de campo
há casas de cidade
há casas abertas
há casas com janelas
há casas de bonecas
há casas de miniatura
há casas em papel
há casas de playmobil
há casas contigo
há casas sem ti
há casas comigo?

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