Susana Isabel da Silva Amaral

Ela é um ano e dois meses mais velha do que eu. Eu tinha 4 anos quando nós nos conhecemos. Ela tinha o cabelo pela cintura, castanho e liso. Eu tinha o cabelo pelos ombros, normalmente separado em duas partes com dois totós vermelhos. Conhecemo-nos debaixo da mesa da cozinha, que ficava encostada a uma parede com azulejos azuis, e onde eu passava muito tempo porque gostava da sensação de ter um tecto por cima, e no qual pudesse tocar.
Tinha acabado de chegar de Faro, onde morei dos dois aos quatro anos, e fixámo-nos em Lisboa. Eu passei a morar no 3.º C, na casa da minha avó que sempre tratei por mãe. Ela morava no 1º C e era filha da porteira. Chamava-se Isabel Amaral e tinha primos com piolhos. Eu não gostava do Benfica porque o pai da Isa não a deixava brincar comigo, dizia a tudo que não quando o Benfica perdia. E o Benfica perdia muitas vezes. Eu não gostava dos primos dela que tinham piolhos. Volta e meia ela era levada pelos pais para a terra que se chamava Viseu para ir ao aniversário de um dos 15 primos que tinham piolhos.
Eu tive piolhos. Agora sei que os piolhos são insectos sem asas, de cor escura, pequenos, que se alimentam exclusivamente de sangue humano. Agora sei que os ovos dos piolhos são endurecidos e de cor branca tipo pérola e são chamados de lêndeas. São depositadas nos fios de cabelo, próximos do couro cabeludo, e deles nascem as ninfas que quando adultas depositam cerca de 80 ovos antes de morrer. Quando eu tinha 4 anos, as lêndeas não eram outra coisa senão os filhotes irrequietos dos piolhos, que gostavam muito de viajar, saltando facilmente de cabeça em cabeça. Nunca me importei de ter piolhos. Aliás, até gostava da extra atenção da minha mãe quando me revistava o couro cabeludo. Às vezes, e isto nunca lhe confessei, fingia ter comichão aqui e ali.
A Isa estava sempre presente. Lembro-me de brincar com ela e com os meus irmãos com legos e carrinhos. De nos construírem uma casa feita de lençóis na sala, presos por molas. Tendas anexadas a tendas. De nos sentarmos quietas e ansiosas pelo espectáculo de fantoches no beliche dos meus irmãos. De chorar desalmadamente quando o meu irmão Pedro incorporando o papel de cowboy maldito queimava os meus índios, depois de atados a paus e rodados sobre uma fogueira, tal espeto de javali grelhado sobre brasas. E da Isa deliciar-se a ver-nos a brincar, porque dizia que preferia ver do que estragar alguma coisa. Lembro-me do meu irmão Bruno me torturar com cócegas quando me ia buscar à escola primária n.º 2 da Pontinha. Lembro-me da Isa ter contado à minha avó que o Marcos me tinha dado um beijinho na boca, e de eu ter sido obrigada a lavar os dentes, os lábios e a língua com sabão azul e branco, quando o beijinho na boca fora na verdade um leve e tímido encostar de lábios muito juntos e esticados. Lembro-me de lhe contar estórias inventadas à pressão só para a distrair, porque ela estava triste. Lembro-me dela ser canhota e eu achar muita piada. E de com as nossas mãos termos feito um carro viajar até ao futuro, passando com o carrinho perto da rota de fios de algodão ensopados em álcool, e depois incendiados pelo meu irmão quase pirómano. Lembro-me de querer ser bombeira. E ela polícia. Lembro-me de partilhar todos os meus brinquedos com ela. De andar de bicicleta à volta do quarteirão, por turnos. Primeiro ela. Depois eu. Depois ela. Depois eu. E o meu Pai e os meus irmãos correrem atrás para que se caíssemos fossemos agarradas. Lembro-me dela a tapar a boca com as duas mãos, de ficar vermelha e parecer que podia explodir a qualquer segundo, e de me implorar que eu parasse de contar piadas porque ela não conseguia respirar se se risse assim tanto. Lembro-me de lavarmos as duas as roupinhas das nossas bonecas no tanque. Em dois tanques pequenos, feitos ao nosso tamanho, e que a minha mãe comprou para nós. Lembro-me de nos esticarmos para pendurar as roupas nos varais do 1.º C. Lembro-me de ficarmos as duas na varanda do 3.º C a olhar para o prédio alto e cheio de janelas iluminadas que ficava depois do descampado, onde eu costumava colher flores com a minha avó. E eu dizia-lhe frequentemente que eu ainda havia de morar naquele prédio de reis e rainhas, quando fosse crescida. E que a levava comigo. Lembro-me de lhe dizer, agora eras a policia e eu era o ladrão e tu tentavas prender-me porque eu tinha roubado as maçãs da mercearia do senhor Mário e da senhora Odete. Ela sempre quis ser polícia. Eu sempre quis ser um ladrão.
Lembro-me de tanta coisa. De a ter convencido a brincar às cabeleireiras na sala da casa da minha avó que sempre tratei por mãe. Ela, com a voz fina e instável de 5 anos, perguntava-me pela terceira vez, ó Sofia, não vais cortar a sério, pois não? E eu dizia-lhe, fica descansada que a tesoura é de brincar. Mas vira-te para a frente. Vira-te para a frente senão não brinco mais contigo. E ela virava-se para a frente. E eu cortar-lhe-ia o cabelo pelas orelhas. E ela agradecer-me-ia, porque assim ficava mais bonita. Sempre tive a certeza de que se eu lhe dissesse, faz isto, faz aquilo, senão nunca mais sou tua amiga, ela fazia. Uma amizade assim nunca mais tive.
Agora moro no 1.º B desse prédio que não tem reis nem rainhas, a senhora Odete morreu com um cancro, tu moras em Viseu e trabalhas numa fábrica de material de automóvel. Mas eu, quando vou visitar a minha avó, continuo a olhar da varanda do 3.º C para baixo, e procuro no varal as roupas das nossas bonecas penduradas. E por vezes, quando volto para minha casa, engano-me e vou bater ao 1.º C. Vamos andar de bicicleta. Vamos vestir e pentear as bonecas. Vamos brincar com plasticinas. Vamos cantar ao microfone. Vem brincar comigo, Isa, senão nunca mais sou tua amiga.

O meu nome é Sofia e moro com os meus pais na Pontinha

A minha casa da Pontinha cheira à minha mãe. Cheira a bolo de chocolate feito pela Olga. Cheira a jogos de xadrez com o meu pai, que desconfio que ou me deixa ganhar ou joga muito, assustadoramente mal. A minha casa da Pontinha sabe às manhãs de sábado, deitada na cama a ver os bonecos na televisão, e a pão com nucrema, ou nucrema com pão. Sabe àquelas pessoas de plástico de 9 centímetros às quais passo a vida a mudar as perucas e as pernas. Toma lá umas pernas azuis, para combinar com a camisa. É isso, a minha casa na Pontinha cheira a pernas azuis dos playmobis.
Mas hoje devo estar constipada. Deve ser isso, porque não sinto nenhum cheiro familiar. Estou de férias em algum lugar. Sim, porque hoje não acordei no meu quarto cor-de-rosa. Nem acordei com a minha mãe a subir de rompão os estores, porque está um dia lindo lá fora, nem com as músicas dos Platters, ou com canções italianas. Hoje a minha avó também não me veio desafiar para um crapô. E o meu pai não chegou a casa, nem pousou a pasta de médico, parecida com a pasta do Dr. Freud, no armário da entrada. Os miúdos não discutiram sobre quem levava o carro hoje à noite. O Pedro não atirou as culpas para cima do Bruno e o Bruno não se atirou para o sofá a ver televisão. Não está ninguém em casa, ou será que eu é que me evadi de mim? Não. Devo estar de férias.
Estranho. Quem é este homem que agora todas as noites dorme e acorda comigo? Que parece que sabe quem eu sou e do que é que gosto. Que sabe que tenho medo de morrer a dormir, e que tenho medo de enlouquecer. Mas quem é este homem sentado ao meu lado com um anel igual ao meu, e que sempre se adianta e pede uma Coca-Cola por mim porque sabe que eu não bebo outra coisa? É giro, não vou dizer que não, e de vez em quando dá-me beijos na boca, sabem bem, não vou dizer que não, mas não deixa de me ser um estranho. Um estranho que me conhece. Será que me é alguma coisa? Um parente afastado? Um primo afastado apaixonado? Não. Não sei quem é. E não é da minha família. Nós somos cinco lá em casa. Não há o que enganar nas contas. Sempre fomos cinco: A minha mãe, o meu pai, eu e os miúdos. A minha avó mora no quarteirão a seguir, tenho um tio-avô em Linda-a-Velha e uma tia-avó na Rua dos Soeiros, e é isso, não nos damos com mais ninguém. E lá em casa somos 5.
Estranho. Dizem-me agora que As minhas águas rebentaram. Mas eu não estou a chorar nem estou com a menstruação. Eu acho que sofro é de incontinência. Sim, sinto água a correr pelas pernas abaixo, qual fonte contrariada. Depressa, é o primeiro filho, acabei de ouvir. Mas filho de quem? O meu nome é Sofia e eu moro com os meus pais na Pontinha. Vestiram-me uma roupa azul, e gritam, repetitivos, Puxe, puxe. Vá lá, só mais uma vez. E eu, obediente e de pernas abertas, vejo um bebé a sair de mim, a chorar desalmadamente. Quem é ele? Parece um dos meus Nenucos mas eu sei que não é meu. Os meus Nenucos não choram, não funcionam a pilhas.

Não sou supersticiosa

Tenho 33 anos e ainda não casei. Não sei se a razão pela qual ninguém me leva ao altar é o facto da minha avó ter-me varrido várias vezes os pés durante a infância. Ou se tal desgraça tem origem nas milhares de vezes em que brindei com água. Ou se é por ter trazido para casa um gatinho preto que estava praticamente a morrer desidratado debaixo daquele carro, e de me ter obviamente cruzado então com ele outras milhares de vezes dentro de minha casa. Não sei se não caso porque as poucas vezes em que peguei numa vassoura foi para varrer o pó preguiçosamente para fora de casa, e o povo diz que quem faz tal asneira está a varrer a sorte para longe. A verdade é que a minha avó parecia estar ciente do que fazia as vezes sem conta em que me varreu os pés; terminava sempre por se rir e dizer: Olha, parece que já ninguém vai casar contigo, meu amor. Dizia-me que eu não perdia nada em não casar, pois dos homens nem bons ventos nem bons casamentos. Acho que a expressão é relativa a Espanha, e talvez, só muito talvez aos Espanhóis, mas a minha avó sempre gostou de generalizar. “Os homens não prestam”, ainda hoje me diz. Mas a grande culpa no cartório, o único que devo pisar nesta vida, é minha. Acho que o nunca ter sido supersticiosa me tem dado azar. A quantidade de vezes em que abri guarda-chuvas dentro de casas só para ver a cara de horror dos que acreditam nestas crendices! Há uns anos quebrei um espelho, e tudo o que fiz foi limpar os cacos de vidro. Nem me passou pelo pensamento que poderia ter 7 anos de azar. Se calhar fazia melhor se parasse de escrever agora mesmo e fosse ali fora procurar no mato um trevo de quatro folhas, para tentar chamar os bons ventos, ou se fosse até ao mercado comprar uma pata de coelho: dizem que dá sorte; menos para o coitado do coelho que ficou sem a pata. Não sei, mas parece que tudo o que tenho feito na vida tem sido atrair o azar. Chegava da rua e o que é que fazia ao meu chapéu? Atirava-o para cima da cama. E a mala? Deixava-a cair no chão. Se alguém tem de se sentar a uma quina de uma mesa por haver muitas pessoas e pouco espaço, adivinhe quem se oferece? Eu; a estúpida de mim. Parece que existe uma lista infindável de coisas que não devo fazer para não atrair o azar, e parece que fui programada ao nascer para querer fazer tudo isso. Ao mesmo tempo, estas crendices parecem-me não ter pés nem cabeça. Mas a superstição é mesmo isso: é a crença em situações com relações de causa e efeito que não se podem mostrar de forma racional ou empírica. São coisas irracionais. Não fundamentadas. Algumas são tradições populares, outras relacionadas com religião ou mágica. Como é que eu posso aceitar que conjuros, feitiços, maldições, rezas, curas e outros rituais possam influenciar de maneira transcendental a minha vida? Se eu for acreditar – e permita-me fazer o erro de colocar tudo no mesmo saco – na cartomancia, na quiromancia, na homeopatia, no tarot, e em Feng Shui, não faço mais nada na vida e até simples coisas como decorar a casa se tornam difíceis. Lá porque os orientais usam símbolos para figurar bons presságios capazes de atrair sorte ou azar, e isso funciona para eles, tenho eu também de passar uma semana ao computador a fazer um Google de Feng Shui antes de poder decidir ou saber onde devo colocar o novo móvel na sala? Ou quando voltei da Índia, devia ter-me certificado que os elefantes de marfim que trouxe de Goa e que gostava de ter expostos na sala, deveriam antes ter sido colocados no corredor da entrada com o rabo virado para a porta de entrada? Aliás, para ser exata, em vez de 2 elefantes devia ter trazido 3. O primeiro tem de ter a tromba virada para a entrada da porta principal, o segundo elefante o rabo virado, e o terceiro deveria ser colocado num sitio onde nós não o possamos ver nem quando andamos a limpar o pó. Como já disse, não sou supersticiosa e recuso-me a acreditar que coisas fora de mim exercem este impacto na minha vida. Para mim um gato preto é um gato preto. Na América do Sul, acredita-se que é um espírito malévolo capaz de causar mal estar e até mesmo a morte, contudo, se ferverem a carne do tal gato poderiam estar a curar a tuberculose pulmonar; já na Europa e nos Estados Unidos da América, o pobre do gato preto simboliza o demónio e as suas obras diabólicas. Eu nunca fui e nunca serei supersticiosa: para mim, um gato preto é um gato dessa cor. E mais nada. É verdade que tenho já 33 anos e ainda não casei, nem sequer consigo ter um namorado, estou a dormir no sofá de uma amiga porque chovia mais dentro de minha casa do que na rua, o meu carro está parado na oficina há coisa de duas semanas com problemas no motor, antes de deixar o carro no mecânico, atropelei o meu gato que acabou por morrer, as plantas da sala também estão mais para lá do que para cá, perdi a hoje a minha mala com a carteira e os meus dois telemóveis lá dentro, e como dizem que um azar nunca vem só e chega em séries de 7, só me falta agora ser despedida e perder o emprego. Não sou supersticiosa, mas pelo sim, pelo não, deixe-me cá bater 3 vezes na madeira. “E que o diabo seja cego, surdo e mudo.”

Men VS shoes

What is the best relationship match for a woman: a man or a shoe? It doesn’t seem to me a close-fitting competition. A survey finds women really don’t rate men as much use at all. And we all know the love and obsession of women towards shoes, right? Some of my bittersweet girlfriends say that men really are good for nothing. Okay, we are all in our 30s and that might include lots of bitter end symphonies in our lives. But fear not, I believe they are wrong: we still need men to get rid of spiders. According to an untrusted, in my opinion, survey of 1 thousand adults, where my girlfriends did not clearly fit in, 60 per cent of women said men were good at getting rid of spiders. Since there are eleven orders of arachnids, and these include the scorpions, mites and ticks, harvestmen, pseudo scorpions, whip scorpions, solpugids, and finally spiders; the fact that men are useful to kill spiders is not a big deal, is it? And we can do it as well ourselves, with the right shoe. So far, and regarding spiders, we have a tie: shoes 1-1 men. Also, 50 per cent in this useless, in my opinion, survey rated men’s barbecue skills, they are talking gas and charcoal, and 70 per cent said men are super useful when it comes to changing a tyre. I totally get this, I mean; if someone knows how to grill is a man; a shoe alone, or even a pair of shoes, cannot grill my meat medium rare or fix a computer or hang straight that heavy painting on the wall or go as far as changing the tyre of a car. Women can do it all by themselves wearing shoes, but shoes can’t do it for them. Men visibly win here. Assembling furniture is a pain too but someone has got to do it. And that someone is the man, not the shoe. Regarding alcohol, over half of the women rated men’s ability to drink. In my opinion we are better served here with a shoe, that doesn’t eat either but most importantly doesn’t drink. That is exactly what I am saying: A shoe can’t get drunk nor put the blame on the extra drinks for that occasional affair with that pair-of-boobs-girl which name he can’t even remember now because it was not meaningful for him. We never saw a drunken shoe. They put up with drunken people, yes, but they don’t get drunk. And this is a huge advantage for the relationship to work. On the other side, there is very little space for romance between a woman and her shoe. A woman can kiss the shoe but the shoe can’t kiss back. This is a big contra. The good thing is that a shoe also doesn’t have its mouth dirty. Actually, it doesn’t have a mouth at all. Of course not, it is a shoe; are you silly? Well, this to say that shoes are way classier creatures than men will ever be. Maybe this is a bad example, but Joe Pesci’s character in one of the Lethal Weapon’s movies, goes on an f-word fueled outburst about mobile phones for the first minute. That is definitely not classy. You would never see a shoe ranting like this. Consider then the common finding that women are more emotionally expressive than men. For an intimate relationship, good communication is helpful, right? Sometimes talking to a man can be as frustrating as talking to a pair of shoes. I bet men say the same comparing us to dumb doors, but looking at the bright side of life, a shoe will never call a woman names or answer her back in a bad tone. And it will always support her no matter what. A shoe is the new gentleman. It walks for me on the dirt and on puddles, and protects me from getting hurt or cold; and when it is needed the shoes will keep my feet warm. It is true that only a man can take off his coat and throw it gently over a puddle for a lady to step on, but have you ever seen something like that happening nowadays? Well, I know it is a bit stupid anyhow and imagine the cost of laundry detergent every winter? The lazy lady and the silly guy could just easily together avoid the puddle. Anyways, far safer and smarter is to have the right shoes on, and not to depend on any man. And let’s bear in mind that some men like to push women to the mud puddle, in other words: really down. If she gets smaller, they come across taller. Of course, men are not all like that, but the shoe doesn’t ever do that, right? On the opposite, the shoe makes the woman taller. Even if it is flat shoe, it will still make her taller than if she would be barefoot. Also when it comes to a possible domestic violence scene a woman is always better off if she is in a relationship with a shoe. A shoe will never grab her and throw her against the wall. And she can always throw the shoe against the wall. But why would you throw a shoe against a wall? It is true that the shoe will not assist us women in some things that men could, like reading well maps and with mathematics, for example, but you don’t need to be violent. It is just a shoe, are you silly? Okay, the shoe will not be helping the woman with that, I know, in fact, the shoe will get lost over and over again along with the woman, since her disorientated brain controls her feet. A man can easily add and subtract, divide and multiply; and a shoe cannot. Summing everything, it is a pretty close race, I know. I just hope my thoughtless words serve as a rude awakening to those millions and millions of men who are becoming every day more useless. Be watchful, dudes: we need super-men, not just men. And your competition is forceful: everyday the shoes are getting better and better. Stupidly, you, naive men, are the ones who improve them. But the point is that the shoes nowadays don’t want just to look good. They want to be enhanced, unbeatable, and irreplaceable. There is the toning shoe, which has become one of the most talked about products in the footwear industry. Toning shoes are said to improve muscle strength and tone, improving balance, improving posture, burning more calories, relieving stress on joints and even eliminating back, foot or leg pain. Which man does all of this at the same time? You also have the running shoes that not only provide substantial midsole foot cushioning, they also offer arch support, aid in the prevention of injuries and can promote improved athletic performance. While it is true that you can go for a healthy run with your guy and have him running in front of you to motivate you to run even faster, and therefore you burn more calories, and while it is undeniable that most men would gladly push you from your behind to help you increase your speed, this doesn’t happen that often. So the shoes are still a better bet; and these are just two easy examples. Picking the right shoes is very important for the body and for the health in general. It should not be just a pretty shoe. Just like if we choose a man who is just a pretty face. Both relationships will not get far. We need both, man and shoe, to be our perfect fit. And for that to happen it is needed much more than just prettiness. Every year, the feminine population loses 44 millions of days of work due to pain, caused by the wrong shoes. And how much time is wasted with the wrong men? The women’s relationship with the shoe will last a long time and there is not even the risk of being left or abandoned. A good pair can last long years, and they can even accompany the woman to her last address on earth, the creepy underground, even if her doesn’t take too much care of them and believe me, they can take quite a beating: we all know that sometimes is not easy to be in a relationship with a woman. At least once a month things evidently don’t get easy for anyone: neither men nor shoes. But as I said, if men still want women, watch out guys: women do love shoes and they are your strongest rivals. It is more likely a man to be left for a shoe than for another man. Every day more we will need men less. I read the other day in the Daily Mail journal that fertility experts from the Institute for Reproductive Medicine and Genetics in Los Angeles have found a way for women to have babies without men. That means that any babies born from the process would be baby girls and genetically identical to their mother. Scary or not, and taken to its extreme, it could lead to a female-dominated society where men have little or no importance: just women and their shoes. Brace, brace guys, brace, brace! Well, Cinderella is proof that one pair of shoes can change a woman’s life. Okay, I give this to you, maybe, just maybe, that is related to the man she met in the process of getting her perfect shoes back. And not all is blue for men: I know for a fact that even the perfect fit can hurt a lot sometimes, regardless if it is a man or a shoe we are talking about. It is all about adjusting. And that fine-tuning can cause bags of discomfort, blisters and pain. But if there is love and will, there is a way to walk on: for the man or for the shoes. Still and stubbornly, I see a safer future in a relationship with a pair of shoes. They are more reliable too and they will always put the woman first. Have you ever heard about a workaholic shoe? Have you ever caught a shoe cheating? Of course not, it is a shoe, are you silly? Well, as you can assume, between men, women and shoes the workaholics are mostly the men. One study counted that over 80 per cent of the people who work 50-hour weeks are men. And we cannot know for sure if they are working. We can only trust. But we do know exactly what the shoe is doing and with whom is fooling around: us. A shoe is with its woman, literally, every step she takes. A shoe will never let us fall asleep alone, if we don’t want. The shoes will always be there in our shoe-closet or next to our bed or at the entrance or in our feet, if we wish so. A shoe will never call us late from work saying that the project is still half way done and he will have to work till late hours that night. A shoe will never cheat. It will never use the gym excuse as a cover for his affair, or a night out with boys that turn out to be a night in with another woman. The shoe will never have another feet in, unless we want to share it. And I don’t like to share anything: only food because by sharing more I gain less weight. The shoes will always belong to that woman, since the first moment she had them on her feet, and only to her. They are just hers, faithful, unconditionally, without reservations, no questions asked. And her pair of shoes will never be tired after work. They would tour all the shops in the mall, twice and three times without making a sound of complaint. And even if one day she takes hours to decide what to dress, and she ends up leaving home at midnight, at the last minute her pair of shoes will not be sleepy, or watching a game, or in a bad mood. They will just be ready waiting for her. My girlfriends complain a lot, about guys mainly, but really a lot. On top of everything I mentioned in here, and this was not an exhaustive list of pros and contras about men and shoes, last night they added the fact that most of their partners don’t know how to dance. Well, once again and predictably, I cheer for the shoes, shaking my red cheerleading pom-poms, and it is not like we have this Club of Men-haters or anything, but the truth is that the shoe will never ever step on us girls while dancing. So shoes win also here. However, there are dancing shoes, but a woman can’t reproduce with them either, and so, for now, a man is still the most pleasurable source of babies making that I can think of. In the end, I guess, every woman is a woman, every man is a case study, and every shoe is in its own shoebox. Every woman is the only one who has to decide what fits her better. I have decided. I’m not saying it’s right, or fair, or correct, but it works better for me to be in a relationship with a shoe. And we are just the perfect fit. Plus, I know for sure that my shoes would never leave me for another younger pair of feet, even if they were a bigger pair than mine.

Homens VS sapatos

Com quem tem a mulher a melhor hipótese de ter uma relação feliz? Com um homem ou um sapato? Não me parece que seja uma competição cerrada. Uma sondagem concluiu que na realidade as mulheres não encontram nos homens grande uso. E todos nós sabemos do amor ou obsessão das mulheres quanto a sapatos, certo? Algumas das minhas amigas dizem amargamente que os homens efetivamente não servem para nada. Okay, todas nós estamos na casa dos trinta e tantas décadas trazem com certeza já acopladas umas quantas tragédias gregas às nossas vidas. Mas calma, eu até acredito que elas possam estar erradas: ainda precisamos dos homens para nos livrarmos das aranhas. De acordo com uma pesquisa, na minha opinião, não confiável em que entrevistaram mil adultos, espero que mentalmente equilibrados, e sendo que às minhas amigas nada foi perguntado, 60 por cento das mulheres da sondagem afirmaram que os homens eram bons a livrarem-se de aranhas. Uma vez que existem onze ordens de aracnídeos, e estas incluem os escorpiões, ácaros e carrapatos, pseudoescorpiões, escorpiões chicote, e finalmente, aranhas; o fato de que os homens são úteis para matar as aranhas não é assim um grande feito, não é? E nós mulheres também podemos fazê-lo, com o sapato certo. Até agora, e sobre aranhas, temos um empate: sapatos 1-1 homens. Além disso, 50 por cento das mulheres desta investigação, na minha opinião inútil, foram apontadas as altas habilidades dos homens para fazer churrasco, e 70 por cento disseram que os homens são super vantajosos quando se trata de mudar um pneu. Eu entendo isso completamente; quero dizer: se alguém sabe como grelhar são os homens; um sapato sozinho, ou até mesmo um par de sapatos, não conseguiria grelhar o meu bife mal passado ou consertar o meu computador ou pendurar um quadro pesado direitinho na parede ou ir tão longe como conseguir trocar o pneu de um carro. As mulheres podem fazer isso tudo se quiserem e com sapatos nos pés, mas os sapatos não podem fazer isso sozinhos por elas. Os homens visivelmente vencem aqui. Montar aquele armário do IKEA é uma dor de cabeça também, mas alguém tem de o fazer. E esse alguém é o homem, e não o sapato. Quanto às bebidas alcoólicas, mais da metade das mulheres salientaram a grande capacidade dos homens têm para beber muito. Na minha opinião, estamos aqui mais bem servidas com um sapato, que não come tanto, e o mais importante não bebe, nem tanto nem de todo. É isso exatamente que estou a dizer: um sapato não fica bêbado, nem coloca a culpa toda nas bebidas extra para justificar estupidamente aquele caso ocasional com aquela rapariga-do-grande-par-de-mamas cujo nome ele nunca se conseguiu lembrar, pois não foi significativo para ele, diz ele. A verdade é que eu nunca vi um sapato bêbado. Eles calçam pessoas bêbadas, sim, mas eles não se conseguem embebedar. E isso é uma grande vantagem numa relação íntima. Por outro lado, há muito pouco espaço para romance entre uma mulher e o seu sapato. Uma mulher pode beijar o sapato, mas o sapato não a pode beijar de volta. E este é um grande contra. A coisa boa é que um sapato também não tem a boca suja. Mesmo que ande na lama. Na verdade, e não vos querendo chocar, um sapato não tem boca. Claro que não, é um sapato pá! Bem, o que quero dizer é que um sapato é mil vezes mais educado do que os homens alguma dia serão. Talvez este seja um mau exemplo, mas o personagem de Joe Pesci num dos filmes da Máquina Mortífera, desabafa durante um minuto sobre telemóveis numa desfile de asneiras que só chega ao fim porque precisou de respirar. Isso definitivamente não é elegante. Ora eu nunca vi um sapato a disparatar assim. As mulheres são também emocionalmente mais expressivas do que os homens, e para um relacionamento íntimo, uma boa comunicação é útil, certo? Às vezes, tentar explicar algo a um homem pode ser tão frustrante como falar com um par de sapatos. E um sapato nunca vai chamar nomes a uma mulher ou dar-lhe uma resposta torta. O sapato é o novo cavalheiro. Ele protege os meus pés contra o frio, está sempre comigo na sujeira e nas poças, e quando é necessário aquece-me os s pés. É verdade que só um homem pode tirar o casaco e jogá-lo cavalheirescamente sobre uma poça para que a senhora continue o seu caminho, mas já viu algo assim a acontecer nos dias de hoje? Bem, eu sei que é um completamente estúpido e imagine-se o custo de detergente a cada inverno? A senhora mimada e o homem gentil poderiam facilmente ter evitado juntos a poça. Uma questão de um desvio de centímetros. Não estamos a falar de quilómetros. De qualquer forma, muito mais seguro e mais inteligente é ter os sapatos certos sempre, e não depender de nenhum homem. E vamos ter em mente que alguns homens gostam de empurrar as mulheres para a poça de lama, em outras palavras: para baixo. Se ela for diminuída, eles parecem mais altos. Claro que os homens não são todos assim, mas o sapato nunca nos faz isso, certo? Ao contrário, o sapato faz a mulher parecer mais alta. Mesmo que seja sem salto alto, ela fica sempre mais alta do que se estivesse descalça. Além disso, quando se trata de uma possível cena de violência doméstica uma mulher está sempre melhor se estiver num relacionamento com um sapato. Um sapato nunca a vai agarrar e jogá-la contra a parede. E ela pode sempre atirar o sapato contra a parede. Mas porque é que tem  de atirar o sapato contra uma parede? É verdade que o sapato não vai nos ajudar mulheres em algumas coisas que os homens poderiam, como com mapas ou a matemática, por exemplo, mas não precisamos de ser violentos. É apenas um sapato, pá! Okay, o sapato em vez de ajudar vai perder-se uma e outra vez junto com a mulher, uma vez que os pés são controlados pelo cérebro desorientado da mulher. Um homem pode facilmente adicionar e subtrair, dividir e multiplicar; e um sapato não pode. Eu só espero que as minhas palavras impensadas sirvam como um despertar rude para os milhões e milhões de homens que estão a cada dia são mais inúteis. Tenham cuidado, rapazes: nós precisamos de super-homens e não de homens. E a concorrência é forte: todos os dias os sapatos estão a ficar melhor e melhor. Hoje em dia não querem apenas ter uma boa aparência. Eles querem ser reforçados, imbatíveis, e insubstituíveis. Há o sapato tonificante para melhorar a força muscular e tónus, o equilíbrio, melhorar a postura, queimar mais calorias, aliviar o stresse nas articulações e até mesmo eliminar as dores nas costas, no pé ou na perna. Qual é o homem que faz tudo isso ao mesmo tempo? Também há os ténis de desporto ou de corrida que não só fornecem substancial amortecimento na sola, como também oferecem suporte para o arco, ajudam na prevenção de lesões e podem promover a melhoria do desempenho atlético. E embora seja verdade que podemos simplesmente ir correr com o namorado e mante-lo a correr à nossa frente para nos motivar a correr ainda mais rápido e, portanto, queimar mais calorias, e, embora seja inegável que a maioria dos homens de bom grado empurrariam qualquer mulher para ajudá-la a aumentar a velocidade, isso não acontece com muita frequência. Assim, os sapatos ainda são uma aposta melhor; e estes são apenas dois exemplos fáceis. Escolher os sapatos certos é muito importante para o corpo e para a saúde em geral. Não deve ser apenas um sapato bonito. Assim como se nós escolhermos um homem que é apenas um rostinho bonito, as duas coisas não irão muito longe. Precisamos que, tanto o homem como o sapato, sejam o nosso par perfeito. E para que isso aconteça é necessário muito mais do que só beleza. Todos os anos, a população feminina perde 44 milhões de dias de trabalho devido à dor causada pelos sapatos errados. E quanto tempo é desperdiçado com os homens errados? A relação das mulheres com os sapatos tem tudo para ser longa e não correm sequer o risco serem traídas ou deixadas. Um bom par pode durar longos anos, e podem até acompanhar a mulher ao seu último endereço na terra, mesmo se ela não tomar muito cuidado com eles e, acreditem que não é fácil estar num relacionamento com uma mulher: nem para os homens nem para os sapatos. De certeza, pelo menos uma vez por mês. Mas como eu disse, se os homens ainda querem as mulheres, cuidado rapazes: as mulheres amam sapatos e eles são os vossos rivais mais fortes. É mais provável que um homem seja deixado para um sapato do que para outro homem. A cada dia que passa precisamos menos dos homens. Eu li no outro dia no jornal Daily Mail que especialistas em fertilidade do Instituto de Medicina Reprodutiva e Genética em Los Angeles encontraram já uma maneira das mulheres terem bebés sem a ajuda dos homens. Isso significa que todas as crianças nascidas a partir deste processo seriam meninas e geneticamente idênticas à sua mãe. Assustador ou não, e levado ao extremo, isso poderia levar a uma sociedade dominada pelas mulheres, onde os homens têm pouca ou nenhuma importância: apenas as mulheres e seus sapatos. Bem, a Cinderela é a prova de que um par de sapatos pode mudar a vida de uma mulher. Okay, eu posso concordar, talvez, apenas talvez, um bocadinho que se calhar a vida dela ter mudado pode eventualmente estar relacionado com o homem que ela conheceu e que lhe devolveu o dito sapato. Não devemos ser peremptórios, eu sei, até porque eu sei por experiência própria que mesmo o ajuste perfeito pode doer muito às vezes, não importa se é de um homem ou de um sapato que estamos a falar. É tudo uma questão de aclimatação. E esse acerto pode causar desconforto, bolhas e dor. Mas, se há amor e vontade, há um caminho para ser percorridos juntos: para o homem e para os sapatos. No entanto e se calhar teimosamente, vejo um futuro mais seguro num relacionamento com um par de sapatos. Eles são mais confiáveis ​​e estar com a mulher é tudo o que lhes interessa. Já alguma vez ouviu em sapatos viciados no trabalho? Já apanhou algum sapato a mentir ou a enganar, a trair? Claro que não, é um sapato, pá! Bem, como se pode facilmente deduzir, entre homens, mulheres e sapatos, os viciados em trabalho são principalmente homens. Um estudo mostra que mais de 80 por cento das pessoas que trabalham 50 horas por semana são homens. E nós não podemos saber ao certo se eles estão a trabalhar ou não. Temos apenas de confiar. Mas sabemos exatamente o que o sapato está a fazer e com quem está: nós. Um sapato está com a sua mulher, literalmente, a cada passo que ela dá. Um sapato nunca nos vai deixar adormecer sozinhas, se nós não quisermos. Os sapatos estarão sempre lá no nosso armário ou ao lado da nossa cama ou na entrada ou nos nossos pés, bem calçadinhos, se assim o desejarmos. Um sapato nunca nos vai ligar tarde do trabalho a dizer que o projeto ainda está a meio e que vai ter de ficar a trabalhar até altas horas da noite. Um sapato nunca nos vai enganar. Nunca vai usar a desculpa do ginásio como álibi para o seu caso, ou uma noite nos copos com os amigos que acaba por ser uma noite com outra mulher. O sapato nunca aquecerá outro par de pés, a menos que nós os emprestemos. E eu não gosto de partilhar nada: só comida, porque, quanto mais eu partilho menos peso ganho. E o par de sapatos nunca vai estar cansado depois do trabalho. Correriam todas as lojas do Colombo, duas e três vezes, sem fazer um som de reclamação. E mesmo se um dia ela demorar horas a arranjar-se, e acabar por sair de casa à meia-noite, à última hora o seu par de sapatos não vai ser sonolento, ou a ver um jogo, ou de mau humor. O seu par de sapatos vai estar ali pronto à espera dela. As minhas amigas queixam-se muito, principalmente sobre os homens, mas realmente muito. No topo das queixas que eu mencionei aqui, e não pretendi que fosse uma lista exaustiva de prós e contras sobre homens e sapatos, ontem à noite elas acrescentaram o facto de que a maioria dos seus parceiros não sabe dançar. Bem, mais uma vez, e previsivelmente, torço pelos sapatos, agitando os meus pompons vermelhos de torcida, e não que tenhamos um clube de Abaixo os Homens ou qualquer coisa do género, mas a verdade é que o sapato nunca nos vai pisar enquanto dançamos. Então os sapatos acabam por ganhar vantagem também aqui. No entanto, dançam, mas a mulher não pode reproduzir com eles, e assim, por agora, o homem ainda é a fonte mais prazerosa de fazer bebés que me ocorre neste momento. No final de tudo, eu acho que, cada mulher é uma mulher, cada homem é um estudo de caso, e cada sapato está na sua própria caixa de sapatos. Cada mulher é a única pessoa e só ela é que pode e deve decidir o que se encaixa melhor para ela. Eu já decidi. E não estou a dizer que é certo ou justo ou correto, mas funciona muito melhor para mim estar numa relação com um sapato. E nós somos a combinação perfeita. Além disso, eu tenho certeza de que os meus sapatos nunca me iriam deixar por outro par mais novo de pés, mesmo se fossem de um par maior do que o meu.

Mentir engorda

Era bom que fosse verdade. Podia ser que então as pessoas mentissem menos, nem que fosse para manter a boa forma física. No dicionário está escrito que mentir é enganar, uma impostura, uma fraude, falsidade, um engano dos sentidos ou do espírito, um erro, ilusão, fábula, uma ficção. Infelizmente, toda a gente mente. Há tantas maneiras de mentir e há tantas razões ou não-razões para mentir. E isso tudo não passa de uma grande perda de tempo em que uma das pessoas acaba por estar a roubar o direito da outra à verdade. Ninguém gosta de ser roubado, mas toda a gente rouba. Existem tantos cursos de representação para televisão e para cinema, tantos cursos de escrita criativa que não entendo esta nossa necessidade de contar mentiras. Pelo menos, que tivéssemos a simpatia de sacar do bolso uma daquelas escadinhas que se compram no IKEA e de, ao subir os degraus para chamar a atenção, ir avisando que “O que vou dizer agora é uma grande mentira que te vai fazer muito feliz” ou que “Esta estória que te vou contar não se passou mas eu gostava que se tivesse passado porque ia tornar-me uma pessoa bem mais interessante aos teus olhos”. E pronto, depois dessa introdução tinham a minha bênção para mentir com todos os dentes que Deus ou Alá lhes deu. Um bocadinho de sinceridade não iria ferir ninguém. Acho até que avisar que vamos disparar uma mentira seria sempre melhor do que andarmos todos com coletes à prova de sentimentos. Assim ninguém entrava enganado por uma porta dourada que afinal dá para as cavalariças. Por isso, “Olha, vou dizer-te uma coisa falsa agora para dar aquele ar de miúda moderna, e porque não quero que me tenhas por garantida dou aquele toque final de despreendimento ou de sei-lá-talvez-pode-ser-sim-tanto-faz-a-que-horas-então?” Ou se calhar devíamos simplesmente criar uma placa ou um sinal de proibição e inundar a cidade com eles. E a partir desse dia seria, pelo menos em alguns lugares “Proibido mentir”. Parece-me uma boa ideia dado que as outras placas parecem resultar, veja-se a da relva por exemplo. Há muito poucas pessoas que depois de avisadas, pisam a relva. Teríamos apenas de nos preocupar com os iliteratos. Nada que a cara do Pinóquio com um traço diagonal vermelho em cima não resolvesse. Existem já tantas plaquinhas dessas: “Proibido fumar”, “Proibido nadar no rio”, como se eu fosse tentar nadar em terra, ou umas mais incomuns, como “Proibido mascar pastilha elástica”, que vi uma vez em Singapura, ou “Proibido cuspir para o chão”, o que acho absolutamente justo, dado que também não vemos o chão a cuspir para as pessoas. À porta de todos os centros comerciais em Abu Dhabi, nos UAE, pode ler-se “Proibidas as manifestações de afecto” (curiosamente nunca vi um que dissesse “Proibido agredir”) ou aquelas placas que dizem “Proibido urinar no elevador”. Esta confesso que me fez parar e ler aquilo duas vezes. Mas que sinal de proibição mais estranho, e claro, lido e feito: apeteceu-me fazer xixi. Seria uma coisa que aconteceria assim tantas vezes para que tivessem de a proibir? Seria comum ouvir-se um “Vou só ali ao elevador fazer xixi e volto já”? Como hoje bebi muita água vou com certeza até ao décimo sétimo-andar. Num dia meu normal, iria só até ao terceiro andar. E será que essas pessoas que fazem xixi nos elevadores são as mesmas que vão falar ao telefone para as casa-de-banho públicas ou para as salas do cinema? “Proibido arrancar flores do jardim”, também vi essa em Abu Dhabi. São pessoas românticas, estas que vivem nos Emirados Árabes. Não dão a mão em público mas estão constantemente a oferecer flores. É certo que algumas dessas placas, por mais estranhas que sejam, devem ser indispensáveis em alguns locais ou para certas pessoas. E daí eu pensar que um “Proibido mentir” se calhar traria resultados positivos. Imagine, uma placa destas em cafés, em bares, em restaurantes. “Proibido mentir” nos parques de estacionamento, nos jardins, nas escolas, no Parlamento (meu Deus, no Parlamento!), nas esquadras de Polícia, até nas Igrejas. Principalmente nas Igrejas, e logo à porta. Ou conselhos de segurança do género: “Se conduzir não minta”. Deste modo, reduzíamos também os acidentes de viação, dado que o uso do telemóvel enquanto se conduz é provavelmente, ao lado da embriaguez, uma das maiores causas de morte na estrada. Sei lá, pelo menos teríamos lugares no mundo em que podíamos estar em segurança, já que confiar uns nos outros, depois de todas as mentiras que já disse e ouvi, está um bocadinho ultrapassado e parece-me só essa ideia ela própria já uma ilusão. Pelo menos admito, já menti umas quantas vezes e a verdade é que às vezes quase que percebo porque é que todos nós mentimos. É que uma mentira pode parecer em alguns casos quase uma obra de caridade. Quase um ato de boa vontade, de bom coração. Mas não é, e devia ser proibido. Seja qual for a motivação, todos ganhamos com a verdade, ainda que por vezes a longo prazo. Dizer a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade é simples, requer menos trabalho, menos preocupação, menos capacidade de memória, e ninguém perde tempo com desilusões. E tenho boas notícias para todos nós mentirosos. Se dissermos a verdade, o mundo não vai acabar, não nascem gémeos siameses, os tomates da quinta da D. Alice não vão de repente apodrecer, a gravidade da Terra não desaparece, não teremos 7 anos de azar, e as estrelas não morrem mais depressa. Dizer a verdade não faz crescer borbulhas na cara de ninguém, nem pelos nos mamilos, não causa cancro no pulmão, não provoca acidentes de viação, e não engravida ninguém. Dizer a verdade também não engorda. É uma coisa básica, descomplicada que liberta e rejuvenesce, e que o vai tornar mais bonito, de dentro para fora. Exercite a verdade. Há que a colocar em prática, tirá-la dos livros, sacudir-lhe o mofo, e se for complicado ao início por causa dos maus hábitos, comece por exercitá-la apenas dez minutos por dia. Não poderá dizer uma única mentira, seja ela branca, ou preta, seja ela amarela às bolinhas. E está a fazer batota se estiver sozinho na cama. Se bem que também seria um exercício útil para as pessoas que para além de mentirem aos outros também gostam de mentir a si próprias. Experimente. Na semana seguinte passa para os quinze minutos sem mentiras, e vai por aí fora, de forma corajosa e determinada, impulsionado pelas verdadeiras boas intenções, daquelas boas intenções que não vão encher infernos, até chegar a todas as horas do dia em que passa acordado. Parece-me mais interessante para todos nós um sinal que proíba as pessoas de mentir, do que um que proíba de mascar chiclete. Eu diria mesmo que o “Proibido mentir” é tão necessário e urgente quanto o sinal de “Proibido fumar”. É que as duas coisas fazem igualmente mal.