Curiosidades sobre Edimburgo ou curious facts on Edi

 

Edinburgh is full of mystery, history and funny stories. There are about 16 thousand historical buildings of different epochs. Last time I counted, it had 112 parks, and more trees per head of population than any other city in the UK. Therefore a lot of places to hang people, they’d have thought in the old days, I bet. Hang on a minute, am I the only one here thinking like this and doing silly word plays? Edinburgh has a nickname, the Auld Reekie or old smoky, because in the past a lot of coal and wood were burnt for heating and the air was always full of smoke. So if your hair has been falling out, thinning, or breaking off at the ends you might want to follow the advice of the city residents, who in the 17th century believed that running the burnt ashes of dove’s droppings on their heads would cure baldness. Worth a try.

A cidade de Edimburgo tem muitas coisas curiosas. Por exemplo, reparei nas tantas janelas fechadas com tijolos. Percebi um pouco depois, em conversa, que em 1748, o governo escocês instituiu um imposto sobre janelas e todas as casas que tivessem pelo menos sete teriam que pagar por isso. Comprar tijolos sai realmente mais barato. No mesmo dia, corri a cidade velha de uma ponta à outra e parei pelo Grassmarket para beber uma Coca-Cola (product placement), que hoje é uma área de pubs, restaurantes e lojas, mas que antes era um mercado medieval onde acontecia a maioria dos enforcamentos públicos. Começo a notar um interesse meu um tanto mórbido por enforcamentos. É uma ideia presente nos dois textos, nas duas línguas. Pode ser coincidência. Mas moving on, não pude deixar de reparar na falta de gosto barra brilhantismo na escolha do nome de um dos pubs da área: Last Drop (a última gota), onde dizem os locais que os condenados à forca iam tomar seu último gole de álcool. Esses não morreram com cirrose. Para além de muitas janelas, muitas árvores, muitas chaminés, existem muitas pessoas ruivas. Não que tenha algo contra elas, tenho até um ou dois amigos ruivos que me ilibam de qualquer acusação de preconceito. Mas enquanto que na maioria dos países os ruivos representam 1% da população, na Escócia as pessoas de cabelos vermelhos são 7%. Outra coisa estranha an cidade (não que ser ruivo seja estranho) é o facto de boa parte dos bancos de praça da cidade, quem sabe todos, terem donos. Em Lisboa e noutras cidades do mundo os cães têm donos, os carros têm donos. Em Edimburgo, os bancos também. Todos os que vi têm placas com o nome de pessoas, que vim a saber já falecidas, e que costumavam sentar-se ali. É bem mais alegre ser-se dono de um banco de jardim ainda que depois de morto do que se ter uma placa numa campa. Mais vale estar-se eternamente sentado do que enterrado, não é? Quem paga por essas placas são as famílias, para homenagear os entes queridos. Ficam todos avisados, se eu morrer amanhã, quero ser cremada e quero ter um banco de jardim. Ao sol e com Wi-Fi, por favor.

Já agora, volte para Angola

Espere um momento, encha-me o copo de Coca-Cola e deixe-me tirar a rodela de limão e colocá-la a seguir na sua bandeja que não tem. Sabe como é, tenho 23 anos, dois filhos de colo, e não estou habituada a voar assim. Se puder, diga também às mulheres e crianças que se amontoam neste voo sobrelotado, que deixem de chorar e de gritar, que não estou acostumada a coisas destas. Traga também uns brinquedos para os meus filhos se entreterem. Não lhes consigo explicar porque é que tivemos de partir tão depressa, como se tivéssemos feito algo de muito errado, e sem o pai deles. Já que é tão amável, podia trazer-me uma almofada para a minha avó descansar a cabeça? Ela tem 90 anos e já lhe falta uma perna. E se não for pedir muito, diga ao piloto para voltar para Angola. Sim, porque se eu soubesse que ontem à tarde seria a última vez que eu iria ver o céu cor-de-rosa do Lobito ter-me-ia demorado ainda mais a observar a zona dos mangais e das salinas da cidade verde do Lobito. Tinha ouvido com mais atenção o som das chaminés dos navios que atracavam no porto e o sol das asas dos flamingos, que ecoavam como se sacudissem o pó da cidade com carinho. Ou tinha passado noites e noites acordada só para ouvir o barulho das vassouras, cadenciado, quando as ruas eram varridas e lavadas. Se eu soubesse que tinha de partir, tinha ido mais uma vez ao Hotel Maiombe, para pedir a Coca-Cola com gelo que a senhora agora não tem para me oferecer, porque sei, sim entendo que este voo é de refugiados, de portugueses de segunda, e portugueses de segunda não têm sede nem podem ter vontade de beber um refrigerante. Entendo. Se eu soubesse que hoje seria a última vez que ia pisar na minha Terra, tinha voltado a andar descalça pela cidade ou apanhado mais um Bulama para ir de casa até à praia. Se eu desconfiasse, tinha dançado ao fim-de-semana com o batuque da senzalas em Cabinda. E apreciado mais longamente os poços de petróleo distribuídos pelo alto mar, qual archotes espalhados. Pequenas fogueiras ao longe, que decoravam e iluminavam essa massa de água no escuro. Espere um momento, encha-me o copo de Coca-Cola e deixe-me tirar a rodela de limão e colocá-la a seguir na sua bandeja que não tem. E quando eu levar à boca o copo de água, é bom que me saiba a Coca-Cola.

Pequenina

Sento-me num espacinho e cruzo as pernas. Penso se posso mantê-las assim, porque isso equivale a revelar as meias, e nem sempre as meias combinam com o resto da roupa. Descruzo as pernas, junto os joelhos e apoio os pés nas pontas dos dedos, guardados e amolgados dentro dos ténis. Senta-se uma senhora de uns 60 e poucos anos, mais ruga menos ruga, encharcada em perfume barato que escorre em gotas rechonchudas pelo colo. Sigo com os faróis dos meus olhos as lágrimas perfumadas que descem timidamente por entre os sulcos, e que acabam por manchar o decote em V da camisa preta com letras prateadas. Tento não respirar. Começo a pensar que esta mulher do decote e todas as mulheres e homens deste país que se sentam perto de mim, estão profundamente comprometidos na senda de poupar água. Para compensar, abusam dos frascos rumo à overdose. À minha overdose.
Vejo o metro como uma loja de perfumes. Sou constantemente canhoneada por cheiros que se misturam, provocando um efeito ainda mais derrubador. Inalo e exalo cada vez menos do ar conturbadamente perfumado e no intervalo automático descanso um pouco, para depois ser repetidamente atacada pelos perfumes que não são bem vindos. Maldigo a minha sorte. Difamo o metro. O início do dia. Quero morder as pessoas que usam perfumes. Apedrejo tudo.
Amuada, fecho os olhos e deixo de respirar. Escondo-me nesta cegueira imposta por mim, para folgar e abstrair-me de todos os olfactos e movimentos. De mal com a vida e com vontade de matar a velha, refugio-me no escuro até os meus pensamentos serem calados por sete batidas fortes em staccato. As sete pancadas sucessivas parecem aproximar-se e passo a ouvir a voz que as acompanha e que me faz abrir os olhos. Tenha a bondade de me auxiliar, por favor. – Diz o homem de óculos escuros, que lhe escurecem a paisagem sempre escura, com o braço esticado para a frente e a cabeça inclinada para trás, agarrando com a mão direita a bengala que o conduz.
Voltam as sete pancadas no chão, e eu sinto-me tão pequena que parece que caibo na palma da minha mão.