Mentir engorda

Era bom que fosse verdade. Podia ser que então as pessoas mentissem menos, nem que fosse para manter a boa forma física. No dicionário está escrito que mentir é enganar, uma impostura, uma fraude, falsidade, um engano dos sentidos ou do espírito, um erro, ilusão, fábula, uma ficção. Infelizmente, toda a gente mente. Há tantas maneiras de mentir e há tantas razões ou não-razões para mentir. E isso tudo não passa de uma grande perda de tempo em que uma das pessoas acaba por estar a roubar o direito da outra à verdade. Ninguém gosta de ser roubado, mas toda a gente rouba. Existem tantos cursos de representação para televisão e para cinema, tantos cursos de escrita criativa que não entendo esta nossa necessidade de contar mentiras. Pelo menos, que tivéssemos a simpatia de sacar do bolso uma daquelas escadinhas que se compram no IKEA e de, ao subir os degraus para chamar a atenção, ir avisando que “O que vou dizer agora é uma grande mentira que te vai fazer muito feliz” ou que “Esta estória que te vou contar não se passou mas eu gostava que se tivesse passado porque ia tornar-me uma pessoa bem mais interessante aos teus olhos”. E pronto, depois dessa introdução tinham a minha bênção para mentir com todos os dentes que Deus ou Alá lhes deu. Um bocadinho de sinceridade não iria ferir ninguém. Acho até que avisar que vamos disparar uma mentira seria sempre melhor do que andarmos todos com coletes à prova de sentimentos. Assim ninguém entrava enganado por uma porta dourada que afinal dá para as cavalariças. Por isso, “Olha, vou dizer-te uma coisa falsa agora para dar aquele ar de miúda moderna, e porque não quero que me tenhas por garantida dou aquele toque final de despreendimento ou de sei-lá-talvez-pode-ser-sim-tanto-faz-a-que-horas-então?” Ou se calhar devíamos simplesmente criar uma placa ou um sinal de proibição e inundar a cidade com eles. E a partir desse dia seria, pelo menos em alguns lugares “Proibido mentir”. Parece-me uma boa ideia dado que as outras placas parecem resultar, veja-se a da relva por exemplo. Há muito poucas pessoas que depois de avisadas, pisam a relva. Teríamos apenas de nos preocupar com os iliteratos. Nada que a cara do Pinóquio com um traço diagonal vermelho em cima não resolvesse. Existem já tantas plaquinhas dessas: “Proibido fumar”, “Proibido nadar no rio”, como se eu fosse tentar nadar em terra, ou umas mais incomuns, como “Proibido mascar pastilha elástica”, que vi uma vez em Singapura, ou “Proibido cuspir para o chão”, o que acho absolutamente justo, dado que também não vemos o chão a cuspir para as pessoas. À porta de todos os centros comerciais em Abu Dhabi, nos UAE, pode ler-se “Proibidas as manifestações de afecto” (curiosamente nunca vi um que dissesse “Proibido agredir”) ou aquelas placas que dizem “Proibido urinar no elevador”. Esta confesso que me fez parar e ler aquilo duas vezes. Mas que sinal de proibição mais estranho, e claro, lido e feito: apeteceu-me fazer xixi. Seria uma coisa que aconteceria assim tantas vezes para que tivessem de a proibir? Seria comum ouvir-se um “Vou só ali ao elevador fazer xixi e volto já”? Como hoje bebi muita água vou com certeza até ao décimo sétimo-andar. Num dia meu normal, iria só até ao terceiro andar. E será que essas pessoas que fazem xixi nos elevadores são as mesmas que vão falar ao telefone para as casa-de-banho públicas ou para as salas do cinema? “Proibido arrancar flores do jardim”, também vi essa em Abu Dhabi. São pessoas românticas, estas que vivem nos Emirados Árabes. Não dão a mão em público mas estão constantemente a oferecer flores. É certo que algumas dessas placas, por mais estranhas que sejam, devem ser indispensáveis em alguns locais ou para certas pessoas. E daí eu pensar que um “Proibido mentir” se calhar traria resultados positivos. Imagine, uma placa destas em cafés, em bares, em restaurantes. “Proibido mentir” nos parques de estacionamento, nos jardins, nas escolas, no Parlamento (meu Deus, no Parlamento!), nas esquadras de Polícia, até nas Igrejas. Principalmente nas Igrejas, e logo à porta. Ou conselhos de segurança do género: “Se conduzir não minta”. Deste modo, reduzíamos também os acidentes de viação, dado que o uso do telemóvel enquanto se conduz é provavelmente, ao lado da embriaguez, uma das maiores causas de morte na estrada. Sei lá, pelo menos teríamos lugares no mundo em que podíamos estar em segurança, já que confiar uns nos outros, depois de todas as mentiras que já disse e ouvi, está um bocadinho ultrapassado e parece-me só essa ideia ela própria já uma ilusão. Pelo menos admito, já menti umas quantas vezes e a verdade é que às vezes quase que percebo porque é que todos nós mentimos. É que uma mentira pode parecer em alguns casos quase uma obra de caridade. Quase um ato de boa vontade, de bom coração. Mas não é, e devia ser proibido. Seja qual for a motivação, todos ganhamos com a verdade, ainda que por vezes a longo prazo. Dizer a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade é simples, requer menos trabalho, menos preocupação, menos capacidade de memória, e ninguém perde tempo com desilusões. E tenho boas notícias para todos nós mentirosos. Se dissermos a verdade, o mundo não vai acabar, não nascem gémeos siameses, os tomates da quinta da D. Alice não vão de repente apodrecer, a gravidade da Terra não desaparece, não teremos 7 anos de azar, e as estrelas não morrem mais depressa. Dizer a verdade não faz crescer borbulhas na cara de ninguém, nem pelos nos mamilos, não causa cancro no pulmão, não provoca acidentes de viação, e não engravida ninguém. Dizer a verdade também não engorda. É uma coisa básica, descomplicada que liberta e rejuvenesce, e que o vai tornar mais bonito, de dentro para fora. Exercite a verdade. Há que a colocar em prática, tirá-la dos livros, sacudir-lhe o mofo, e se for complicado ao início por causa dos maus hábitos, comece por exercitá-la apenas dez minutos por dia. Não poderá dizer uma única mentira, seja ela branca, ou preta, seja ela amarela às bolinhas. E está a fazer batota se estiver sozinho na cama. Se bem que também seria um exercício útil para as pessoas que para além de mentirem aos outros também gostam de mentir a si próprias. Experimente. Na semana seguinte passa para os quinze minutos sem mentiras, e vai por aí fora, de forma corajosa e determinada, impulsionado pelas verdadeiras boas intenções, daquelas boas intenções que não vão encher infernos, até chegar a todas as horas do dia em que passa acordado. Parece-me mais interessante para todos nós um sinal que proíba as pessoas de mentir, do que um que proíba de mascar chiclete. Eu diria mesmo que o “Proibido mentir” é tão necessário e urgente quanto o sinal de “Proibido fumar”. É que as duas coisas fazem igualmente mal.

Lying makes you fat

It would be nice if it would be true. It could maybe make people lie a bit less, even if only to keep fit. In the dictionary it says that lying is cheating, a sham, a fraud, falsehood, a deception of the senses or of the mind, a mistake, illusion, fable, a fiction. Unfortunately, everyone lies. There are so many ways to lie and there are so many reasons or non-reasons for lying. And it’s all just a big waste of time in which a person turns out to be stealing the right of another to the truth. Nobody likes to be robbed, but everyone steals. There are many acting courses for television and cinema, so many creative writing courses that I do not understand our need to still tell lies. At least, we could have the sympathy of pulling out from our pocket one of those blocks of 3 steps that we can find in IKEA and, while climbing the steps to get attention, advise our audience that ‘What I will say now is a big lie that will make you very happy for now’ or that ‘I will tell you a story that never happened but I wish it had so that I could be in your eyes a more interesting person.’ And there you go, after this introduction everyone would have my blessing for lying with all the teeth God or Allah gave them. A bit of honesty would not hurt anyone. I think that notifying the other that we would be shooting a lie would be actually better than everyone having to walk around with the feelings-proof vest on. So that nobody would be fooled by a golden door, which ultimately leads to the horse stables. Therefore, ‘Look, I’ll tell you something false now to give you this impression of a modern girl, and because I don’t want you to take me for granted I will have this casual look of I-don’t-know-maybe-yes-why-not-at-what-time-do-we-meet?’ Or maybe we should just create a no-sign, a symbol or a prohibition sign to ban lies and flood the city with them. And from that day on it would be, at least in some places, ‘Forbidden to lie’. That sounds like a good idea since the other prohibition signs seem to work, see the ‘Don’t step on the grass’ one, for example. There are very few people that once warned, trample the grass. We would just have to worry about few rebels and the illiterate. Well, for those nothing that a Pinocchio’s face with a red diagonal line over would not solve. There are already so many of these platelets: ‘No smoking’, ‘Forbidden to swim in the river’, as if I would try to swim ashore, or more unusual, like ‘Forbidden to chew gum’, that I once saw in Singapore, or ‘Prohibited to spit on the floor’, which I absolutely think it is a fair deal since we also don’t see the floor spitting around on people. At the entrance of all the malls in Abu Dhabi, in the UAE, it can be read ‘Prohibited acts of affection’ (curiously I have never seen one that says ‘Forbidden to hurt’) and I saw some that say ‘Forbidden to urinate in the elevator’. I admit that this one made ​​me stop and read it twice. And of course, read and done, I felt like peeing. But is peeing in elevators something that would happen so many times that they would have to ban it? Would it be common to hear ‘I’m just going to the elevator to pee and I’ll be back in a second’? I drank so much water today that I will go for sure until the seventeenth-floor. On a normal day I would only go up to the third floor. And are those people who pee in the elevator the same people who talk on the phone in the public toilets or inside the Movie theatres? ‘Forbidden to pluck flowers from the garden’, I saw this one also in Abu Dhabi. Aren’t they romantic people? They do not walk hand in hand in public but they are constantly offering flowers. I understand though that some of these signs, however strange they might be, must be indispensable in certain locations or for certain people. So I believe that a ‘Forbidden to lie’ may bring positive results. Imagine this sign in cafes, in bars, in restaurants. ‘Forbidden to lie’ in car parks, in gardens, in schools, in the Parliament (my God, in the Parliament!), in police stations and even in churches. Mainly in churches, and right at the entrance door. Or for example: ‘Don’t drive and lie’. Like this we would also reduce the traffic accidents, since using the cell phone is, aside drinking, one of the biggest killers on the road. Whatever. At least we would have places in the world where we would feel safe, since trusting each other is, after all the lies we have told and heard, a bit out-dated and only the idea seems already an illusion itself. I admit I lied a few times and the truth is that once in a while I almost understand why we all end up lying sometimes. There are lies that may appear to be in some cases almost charity. Almost an act of good will, of a good-hearted person. But it is not, and it should be prohibited. Whatever the motivation or intentions, we all win with the truth, though sometimes only in long term. To tell the truth, the whole truth, and nothing but the truth is simple, requires less work, less worry, less memory capacity, and no one loses time with disappointments. And I have good news for all of us liars. If we tell the truth, the world will not end, Siamese twins will not born, the tomatoes of Ms Alice’s farm will not suddenly rot, the Earth’s gravity will not disappear, we will not have seven years of bad luck, and the stars will not die more quickly. Telling the truth does not grow pimples on the face of anyone, nor on your nipples, it does not cause lung cancer, telling the truth does not cause more car accidents, and no one will end up pregnant. Telling the truth does not make you fat also. It’s a very basic thing, which creates uncomplicated situations and it regenerates you, making you more beautiful inside out. Do it. It must be put into practice, take the dust off of it, dry the moisture from it, and if it is difficult to start because of your previous bad habits, start by exercising it only ten minutes per day. But you cannot tell a single lie, whether white or black, whether yellow with polka dots. And it is cheating if you practice the truth while alone in bed. That doesn’t count, although that would also be useful for who lie to themselves. Try it. The following week go fifteen minutes without lying, and go on, in a brave and determined manner, driven by good true intentions that don’t end up in hell, until you make it through the day without a single lie. It seems to me more interesting for all of us a sign prohibiting people from lying, than one banning chewing gum or not allowing us stepping the grass. I would even say that the sign ‘Forbidden to lie’ is as necessary and urgent as the sign for ‘No smoking’. Both are bad for your heart.

O bigode está de volta

Para dizer a verdade, nunca saíram de moda. Os famosos pelos entre a boca e o nariz da D. Joaquina de Benfica que o digam. Nasceram e tornaram-se exuberantes na altura da puberdade e agora aos 72 anos, um pouco mais fracos mas ainda compridos, já fazem tanto parte dela quanto o bigode do Salvador Dali fazia parte dele. Os dois bigodes parecem-me no entanto surreais. Este símbolo de masculinidade dos anos 40 e 50, e também de descuido feminino, entrou em queda nos anos 70, mas parece que o glamour dos atores clássicos de Hollywood está de regresso para contentamento ou arrepio de muitos. Mas para além do aspecto (insira aqui um adjetivo à sua escolha) terá também o bigode alguma utilidade? Hoje acordei a pensar nisso. Sei que os gatos usam os bigodes como instrumento sensorial para localizarem a presa. Ajudam-nos a evitar predadores, a ver melhor no escuro, e até melhora a capacidade de ouvir. Agora, melhorará também a dos homens de ouvir as mulheres, e daí o sucesso estrondoso que esta pilosidade acima dos lábios tem vindo a fazer entre elas? Será o bigode nos homens o instrumento que tanto precisavam para perceberem à primeira quando elas respondem ‘Nada’ na realidade estão a dizer ‘Foste para os copos com os teus amigos em vez de me fazeres companhia em casa quando eu estava doente’? Será também o bigode nos homens o instrumento de localização que os socorra na altura de encontrar o ponto G ou outros pontos de interrogação da mulher? Deixe crescer o seu. E quem sabe se a sua qualidade de vida não aumenta proporcionalmente aos pelos faciais? Os cuidados a ter com os bigodes até nem são muitos. Um pouco mais de sabonete ou champô na hora do banho e uma vez por semana condicionador (opcional) para tornar os bigodes um pouco mais macios. Antes das refeições é necessário alisar com os dedos os pelos para cima para evitar o contacto com resíduos alimentares, ou pentear o bigode com um pente de dentes à antiga, se necessário. E há que tomar atenção quando beber cerveja por causa da espuma. Cultivar um bigode não é para qualquer um, mas só saberá se experimentar. Muitos já o fizeram e deram-se bem. Na lista dos bigodudos constam personalidades como Freddy Mercury, Friedrich Nietzsche, Che Guevara, Clark Gable, Frank Zappa, Albert Einstein, Charles Chaplin. A certa altura todos os Beatles também bigodaram, a Frida Khalo sempre usou bigode, se bem que no sítio errado, o Brad Pitt aderiu recentemente e até o Justin Bieber fez questão de nos relembrar que ainda é um miudinho exibindo o seu ralo não-bigode. Nos anos 60, o Martin Luther King Jr e o seu bigode também tiveram um sonho. O sonho de que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos proprietários de escravos pudessem ter todos eles o seu próprio bigode imponente e se sentassem à mesma mesa para os alisar em conjunto. Pense nisso. Deixe crescer um e veja como se sente. Raspar ou não raspar, diria também Shakespeare ao alisar o seu bigode.

The whiskers are back

 

To tell the truth, they never went out of fashion. The famous hairs between the mouth and the nose of Mrs. Joaquina from Benfica certainly prove that. Her upper lip hairs were born and became sumptuous by puberty and now after 72 years, they are a little weaker but still super long, belonging to her as much as Salvador Dali’s moustache belonged to him. The two whiskers seem to me however surreal. This symbol of masculinity of the 40s and 50s, and also women’s carelessness, went into decline in the 70s, but it seems that the glamour of the classic Hollywood actors is back to thrill or delight of many. But besides the esthetical (insert here an adjective of your choice) part, can also a moustache have some utility? Today I woke up thinking about it. I know that cats use their whiskers as sensory tool to find the prey. Help them to avoid predators, to see better in the dark, and even improves their ability to hear. Now, should the whiskers of men also improve their ability to listen to women, and hence the resounding success that this hairiness above the lips has been doing among them? Would it be the moustache the instrument that men needed to realize at first that when women answer ‘Nothing’ in fact they are saying ‘You went for drinks with your friends instead of making me company at home when I was sick’? Will also be the moustache of men the instrument location that helps them reducing the time to find the G-spot and other question marks of women? Let your moustache grow. And who knows if your quality of life does not increase proportionally to your facial hair? Taking care of whiskers is not even too difficult. A little more soap or shampoo at bath time and conditioner once a week (optional) to make the whiskers a bit softer. Before meals is necessary to smooth the hair with your fingers upward to avoid contact with food waste, or combing the moustache with an old toothcomb if necessary. And attention must be taken when drinking beer because of the foam. To cultivate a moustache is not for everyone, but only if you try you will know. Many have done it and have had success. Included in the list of moustached personalities are Freddy Mercury, Friedrich Nietzsche, Che Guevara, Clark Gable, Frank Zappa, Albert Einstein, Charles Chaplin. At one point all the Beatles also moustached, Frida Kahlo always had a moustache, though in the wrong place and she used to miscall them eyebrows, recently Brad Pitt joined the moustache club and even Justin Bieber made ​​sure to remind us all that he is still a little boy by displaying his drain non-moustache. In the 60s, the Martin Luther King Jr and his moustache also had a dream. The dream that one day on the red hills of Georgia the sons of former slaves and the sons of former slave owners could have all of them their own impressive moustaches and so they could sit at the very same table to smooth their whiskers together. Think about it. Let yours grow as well and then see how you feel. To shave or not to shave, would also say Shakespeare while smoothing his own.

Os meus olhos virados para Toronto

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Toronto na língua indígena significa Ponto de Encontro. Capital de Ontário, é a maior cidade do Canadá e a quarta maior cidade da América do Norte. É multicultural, atraindo milhares de imigrantes todos os anos. Quase metade dos Torontianos nasceu fora do Canadá. Mais de 100 idiomas e dialectos são falados diariamente na cidade. Tanto que foi difícil aperceber-me do famoso sotaque canadense. Portugueses ou luso-descendentes, existem cerca de 550 mil no Canadá, e 130 mil só em Toronto.
É uma das cidades mais seguras do continente americano. Não é preciso muito, já que concorre com cidades do México, dos Estados Unidos da América, do Brasil, mas ainda assim o nível de criminalidade é tranquilizadoramente baixo.
O que me chocou bastante foi ver a quantidade de sem-abrigos a viver nas ruas da cidade, especialmente da primeira vez que estive lá, porque era Inverno e no Inverno deles a temperatura pode cair até -50 °C durante a noite, se incluirmos o factor do vento. A cidade construiu alguns abrigos, incentivados pela morte de um sem-teto, mas pouco ou nada me pareceu que a cidade faz por eles. Na altura do Natal todos se lembram deles, e depois nos outros 11 meses, o que acontece?

A arquitetura dos prédios e edifícios de Toronto é contemporânea, embora se encontre alguns baseados no estilo gótico ou no Art Déco. De todo o hemisfério ocidental, é a cidade com mais arranha-céus em desenvolvimento. A Torre CN que é dos maiores marcos da cidade, é a segunda estrutura mais alta do mundo, em terra firme sem ser sustentada por cabos, com 553 metros de altura. Gastei um pouco mais do que queria, mas valeu a pena: pisei e andei em cima da mais famosa passadeira de vidro, de 7 centímetros de espessura que facilmente aguenta o meu peso e o peso de mais 11 hipopótamos, sendo que não há qualquer relação óbvia entre mim e um hipopótamo, e dei a volta ao edifício a pé, do lado de fora, a olhar para as pessoas pequeninas lá em baixo, com um fato especial seguro a cabos de segurança que se certificaram de que um ventinho mais rebelde não me transformaria no Peter Pan. Só este passeio de cabelos ao vento custou 195 dólares canadianos. Mas inclui vídeo e fotos. Menos mal: algo que prove a minha loucura. Mas foi interessante fazer o passeio, que está marcado como record mundial do Guinness. Se puder, e ainda sobrar dinheiro, jante ou almoce num dos restaurantes com uma vista de 360°. Para saber mais sobre a CN Tower: http://www.cntower.ca/en-ca/home.html.

 

Se não tem muitos dias para descobrir Toronto, eu sugeria que comprasse um bilhete para o autocarro Hop On Hop Off que custa cerca de 35 dólares e percorre as partes mais interessantes da cidade. Eu não me arrependi. E pode dar as voltas que quiser com o mesmo bilhete e sair onde quiser. Pode sair na Torre CN, na Casa Loma, no Museu de Sapatos Bata, no Museu Royal Ontario, na Galeria de Arte Ontário, no Hockey Hall of Fame, no Mercado Saint Lawrence, na Distillery, no Museu Railway, no Eaton Centre, em Dundas Square, no Harbourfront Centre, City Hall, Museu Gardiner, Theatre District, Chinatown, no Mercado Kensington, em Bloor Yorkville, em Queen’s Park, Club District, em University Toronto, na Baldwin Village.
A Casa Loma é sem dúvida uma das saídas a não perder. Tem uma aparência de castelo neorromântico, e foi a casa dos sonhos do Sir Henry, um financista canadense. Agora é um museu, mas até 1914 era a maior residência da América do Norte. Entretanto, a casa nunca foi terminada porque o Sir Henry perdeu o seu monopólio de energia em favor do poder público, e depois acabou por investir em terras, e morreu na penúria, com todas as suas propriedades confiscadas por causa da grande depressão no pós-guerra. Mesmo não terminada, a Casa Loma tem 5 acres de jardins, tinha 59 telefones espalhadas nos compartimentos, 2 passagens secretas, túneis, 98 quartos, 30 casas de banho, uma adega com capacidade para 1700 garrafas de vinho, uma biblioteca com mais de 10 mil livros, e foi cenário de muitos filmes e séries de TV, por exemplo foram lá gravadas algumas partes do filme X-Men para representar a escola de mutantes do Professor. Pode saber mais aqui: http://www.casaloma.org.
O Museu de Sapatos mostra a história e evolução dos sapatos, um pouco por todo o mundo, com mais de 12 mil pares. Se gostar de admirar obras de Picasso, Van Gogh e de Rembrandt, a Galeria de arte Ontário é também uma paragem obrigatória. Com 55 mil metros quadrados, abriga mais de 79 mil obras, incluindo algumas datadas antes de Cristo.
Dizem que para se conhecer bem uma cidade deve se conhecer bem pelo menos um dos mercados públicos. O de Saint Lawrence tem 3 edifícios incorporados, mas é no Mercado Sul que consegue comprar frutos do mar frescos, carnes de todos os tipos, queijos de todos os lugares do mundo, frutas e verduras exóticas, todos os tipos de grãos, diferentes tipos de mostarda (Anton Kozlik’s Canadian Mustard), muitos mas mesmo muitos, e deixem-me dizer mais uma vez, muitos tipos de arroz, provar o World Famous Peameal Bacon Sandwich na padaria Carousel, apreciar um churrasco tipicamente português, e encontrar até fast food de frutos do mar.
O Kensington Market vale uma visita ou duas ou dez. No entanto, não se deixe enganar pelo nome. Não é um mercado e sim um bairro artístico e eclético, além de ser o lugar ideal para parar, sentar e fazer uma pausa para um café, ou para uma tarte deliciosa. Se entrar no Wanda’s Pie In the Sky na Av. Augusta vai ver que tenho razão. É que eu nem gosto de tartes e saio sempre de lá com duas na barriga, e ainda a sonhar com a terceira. Nem quero pensar o que seria de mim se gostasse de tartes, alguém teria de me lavar o estômago mais tarde num hospital qualquer. Depois das tartes, resolvi andar mais um pouco a continuar a perder-me pelo bairro. E quase choquei com o Garden Car, ou carro jardim, um projeto artístico criado em 2006, e que consiste num carro todo pintado a grafite e preenchido, logicamente, com terra e plantas. Sim, eu sei: para quem não gosta ou não entende arte, o primeiro pensamento é há quantos anos foi aquele carro abandonado ali. A verdade é que o dia-a-dia de Kensington Market é preenchido com música, filmes, e muitas mostras de pintura e outras artes. Em Dezembro, o bairro realiza um desfile de bonecos gigantes, chamado de Festival de Luzes, com atracões que lembram o circo com pessoas a engolir e a cuspir fogo, mas ao som de muito samba. Este bairro, que no início dos anos 90 era conhecido como Jewish Market, ou mercado Judeu, costumava ter como moradores imigrantes europeus judeus, e ainda hoje pode visitar algumas das sinagogas criadas na época. Hoje em dia, e desde 2006, a área é património histórico nacional. As ruas do Kensington Market tem uma arquitetura vitoriana, com algumas casas muito bem conservadas, mas a maioria dos residentes de agora são chineses, talvez porque essa parte de Toronto está situada mesmo ao ladinho da Chinatown. E com tantos imigrantes em Toronto, provavelmente sentindo saudades de casa e sem falarem bem ou nada inglês, foram nascendo pequenos países dentro dessa cidade tão internacional. A Chinatown é exemplo disso, mas há muitas outras.
A zona entre as ruas Bathurst e Dufferin é conhecida desde 1970 como Little Portugal. Sempre que podia, eu dava um pulinho ao meu Portugal Pequenino para comer um frango assado tradicional. E sabia-me exatamente igual ao frango aqui da velha da Pontinha. No Little Portugal também encontra muitas padarias e pastelarias e se nunca provou é a altura de conhecer o sabor do bolo-rei. Na primeira vez que lá estive, também pude matar a saudade dos tradicionais enchidos portugueses e deliciar-se com as tripas à moda do Porto, carago! Portugal todo cabe em Toronto.

 

Há restaurantes, papelarias, supermercados, tudo à moda portuguesa. Até cheguei a encontrar num muro, pintado ou em jeito de grafite, uma espécie de desenho do nosso Galo de Barcelos. Não perdi a oportunidade e avancei na neve com orgulho e determinação e tirei uma selfie com ele.

 

Mas os italianos também se podem sentir em casa em Toronto, em Little Italy, com muitos pizzarias, muitos locais para aperitivos, e quem sabe umas máfias pequenas para não perderem a prática. E a Chinatown não é mais do que uma China pequena.
Mas vale a pena ir a Chinatown nem que seja uma vez. Eu tropecei numa festividade com entrada livre durante o fim-de-semana. Se há algum casamento, ou comemoram o início de um negócio ou qualquer outra coisa que o valha, lá se metem, com todo o respeito, dois chineses dentro de um fato de leão, que no Verão deve ser muito quente e no Inverno muito frio, e atuam à frente de moradores e turistas incrédulos. Sei que parece que não, mas adorei a experiência. Senti-me na China.
Se gosta de caminhar, a rua mais comprida do mundo fica em Toronto: A Younge Street. Tem 1896 km de comprimento e grande parte dela é comercial com muitas atracões turísticas como o Eaton Centre, o Dundas Square, e o Hockey Hall of Fame.
Para fazer compras, eu aconselho as paragens da Eaton Centre, com mais de 200 lojas, e da Dundas Square, que é a praça mais importante e visitada da cidade, e oferece feiras, filmes e música na rua, está rodeada de lojas, restaurantes e bares badalados, como por exemplo o Hard Rock Cafe.
Na Dundas Square tem sempre qualquer coisa a acontecer, nem que seja parar para observar os muitos e suis generis artistas de rua. É a Times Square de Toronto, com uma infinidade de outdoors luminosos ao seu redor. Se lhe apetecer participar de uma discussão sobre religião também é aqui que encontra por vezes um ou dois fanáticos de microfone em punho.

 

O High Park é o maior parque de Toronto e tem um zoológico de entrada livre. Tem também campos de futebol, ringue de patinagem exterior, jardins e trilhas para caminhadas e ciclismo. Enfim, não faltam são coisas para se fazer em Toronto.

 

Quando está sol e calor, as ilhas de Toronto são um dos principais destinos não só dos turistas mas também dos moradores da cidade. Tem 230 hectares, mais hectare menos hectare e é a maior comunidade urbana sem carros da América do Norte, por isso vá de bicicleta. Faz bem ao Planeta e à gordura que se costuma acumular à volta da cintura. Alugue por algumas horas uma das bicicletas da cidade, e depois apanhe um dos muitos barcos que seguem para as ilhas e partem do Harbourfront, por 7 dólares canadianos ida e volta. Eu aconselho a Ward’s Beach, é cercada de árvores e áreas para piqueniques.

 

Toronto é definitivamente um daqueles lugares para visitar antes de se bater as botas. Entendo bem que tenha milhares de imigrantes todos os anos que escolhem Toronto para viver. Um dia sou eu, quem sabe. Se ficou com curiosidade, veja tudo o que pode fazer em Toronto aqui: http://www.city-discovery.com/toronto.

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