Não sou supersticiosa

Tenho 33 anos e ainda não casei. Não sei se a razão pela qual ninguém me leva ao altar é o facto da minha avó ter-me varrido várias vezes os pés durante a infância. Ou se tal desgraça tem origem nas milhares de vezes em que brindei com água. Ou se é por ter trazido para casa um gatinho preto que estava praticamente a morrer desidratado debaixo daquele carro, e de me ter obviamente cruzado então com ele outras milhares de vezes dentro de minha casa. Não sei se não caso porque as poucas vezes em que peguei numa vassoura foi para varrer o pó preguiçosamente para fora de casa, e o povo diz que quem faz tal asneira está a varrer a sorte para longe. A verdade é que a minha avó parecia estar ciente do que fazia as vezes sem conta em que me varreu os pés; terminava sempre por se rir e dizer: Olha, parece que já ninguém vai casar contigo, meu amor. Dizia-me que eu não perdia nada em não casar, pois dos homens nem bons ventos nem bons casamentos. Acho que a expressão é relativa a Espanha, e talvez, só muito talvez aos Espanhóis, mas a minha avó sempre gostou de generalizar. “Os homens não prestam”, ainda hoje me diz. Mas a grande culpa no cartório, o único que devo pisar nesta vida, é minha. Acho que o nunca ter sido supersticiosa me tem dado azar. A quantidade de vezes em que abri guarda-chuvas dentro de casas só para ver a cara de horror dos que acreditam nestas crendices! Há uns anos quebrei um espelho, e tudo o que fiz foi limpar os cacos de vidro. Nem me passou pelo pensamento que poderia ter 7 anos de azar. Se calhar fazia melhor se parasse de escrever agora mesmo e fosse ali fora procurar no mato um trevo de quatro folhas, para tentar chamar os bons ventos, ou se fosse até ao mercado comprar uma pata de coelho: dizem que dá sorte; menos para o coitado do coelho que ficou sem a pata. Não sei, mas parece que tudo o que tenho feito na vida tem sido atrair o azar. Chegava da rua e o que é que fazia ao meu chapéu? Atirava-o para cima da cama. E a mala? Deixava-a cair no chão. Se alguém tem de se sentar a uma quina de uma mesa por haver muitas pessoas e pouco espaço, adivinhe quem se oferece? Eu; a estúpida de mim. Parece que existe uma lista infindável de coisas que não devo fazer para não atrair o azar, e parece que fui programada ao nascer para querer fazer tudo isso. Ao mesmo tempo, estas crendices parecem-me não ter pés nem cabeça. Mas a superstição é mesmo isso: é a crença em situações com relações de causa e efeito que não se podem mostrar de forma racional ou empírica. São coisas irracionais. Não fundamentadas. Algumas são tradições populares, outras relacionadas com religião ou mágica. Como é que eu posso aceitar que conjuros, feitiços, maldições, rezas, curas e outros rituais possam influenciar de maneira transcendental a minha vida? Se eu for acreditar – e permita-me fazer o erro de colocar tudo no mesmo saco – na cartomancia, na quiromancia, na homeopatia, no tarot, e em Feng Shui, não faço mais nada na vida e até simples coisas como decorar a casa se tornam difíceis. Lá porque os orientais usam símbolos para figurar bons presságios capazes de atrair sorte ou azar, e isso funciona para eles, tenho eu também de passar uma semana ao computador a fazer um Google de Feng Shui antes de poder decidir ou saber onde devo colocar o novo móvel na sala? Ou quando voltei da Índia, devia ter-me certificado que os elefantes de marfim que trouxe de Goa e que gostava de ter expostos na sala, deveriam antes ter sido colocados no corredor da entrada com o rabo virado para a porta de entrada? Aliás, para ser exata, em vez de 2 elefantes devia ter trazido 3. O primeiro tem de ter a tromba virada para a entrada da porta principal, o segundo elefante o rabo virado, e o terceiro deveria ser colocado num sitio onde nós não o possamos ver nem quando andamos a limpar o pó. Como já disse, não sou supersticiosa e recuso-me a acreditar que coisas fora de mim exercem este impacto na minha vida. Para mim um gato preto é um gato preto. Na América do Sul, acredita-se que é um espírito malévolo capaz de causar mal estar e até mesmo a morte, contudo, se ferverem a carne do tal gato poderiam estar a curar a tuberculose pulmonar; já na Europa e nos Estados Unidos da América, o pobre do gato preto simboliza o demónio e as suas obras diabólicas. Eu nunca fui e nunca serei supersticiosa: para mim, um gato preto é um gato dessa cor. E mais nada. É verdade que tenho já 33 anos e ainda não casei, nem sequer consigo ter um namorado, estou a dormir no sofá de uma amiga porque chovia mais dentro de minha casa do que na rua, o meu carro está parado na oficina há coisa de duas semanas com problemas no motor, antes de deixar o carro no mecânico, atropelei o meu gato que acabou por morrer, as plantas da sala também estão mais para lá do que para cá, perdi a hoje a minha mala com a carteira e os meus dois telemóveis lá dentro, e como dizem que um azar nunca vem só e chega em séries de 7, só me falta agora ser despedida e perder o emprego. Não sou supersticiosa, mas pelo sim, pelo não, deixe-me cá bater 3 vezes na madeira. “E que o diabo seja cego, surdo e mudo.”

Autor: Zufia

Blogger, copywriter, cabin crew, wanna-be translator, wanna-be screenwriter, wanna-be singer, wanna-be psychologist, very nice person but clearly suffering from alternating attention.

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