Mentir engorda

Era bom que fosse verdade. Podia ser que então as pessoas mentissem menos, nem que fosse para manter a boa forma física. No dicionário está escrito que mentir é enganar, uma impostura, uma fraude, falsidade, um engano dos sentidos ou do espírito, um erro, ilusão, fábula, uma ficção. Infelizmente, toda a gente mente. Há tantas maneiras de mentir e há tantas razões ou não-razões para mentir. E isso tudo não passa de uma grande perda de tempo em que uma das pessoas acaba por estar a roubar o direito da outra à verdade. Ninguém gosta de ser roubado, mas toda a gente rouba. Existem tantos cursos de representação para televisão e para cinema, tantos cursos de escrita criativa que não entendo esta nossa necessidade de contar mentiras. Pelo menos, que tivéssemos a simpatia de sacar do bolso uma daquelas escadinhas que se compram no IKEA e de, ao subir os degraus para chamar a atenção, ir avisando que “O que vou dizer agora é uma grande mentira que te vai fazer muito feliz” ou que “Esta estória que te vou contar não se passou mas eu gostava que se tivesse passado porque ia tornar-me uma pessoa bem mais interessante aos teus olhos”. E pronto, depois dessa introdução tinham a minha bênção para mentir com todos os dentes que Deus ou Alá lhes deu. Um bocadinho de sinceridade não iria ferir ninguém. Acho até que avisar que vamos disparar uma mentira seria sempre melhor do que andarmos todos com coletes à prova de sentimentos. Assim ninguém entrava enganado por uma porta dourada que afinal dá para as cavalariças. Por isso, “Olha, vou dizer-te uma coisa falsa agora para dar aquele ar de miúda moderna, e porque não quero que me tenhas por garantida dou aquele toque final de despreendimento ou de sei-lá-talvez-pode-ser-sim-tanto-faz-a-que-horas-então?” Ou se calhar devíamos simplesmente criar uma placa ou um sinal de proibição e inundar a cidade com eles. E a partir desse dia seria, pelo menos em alguns lugares “Proibido mentir”. Parece-me uma boa ideia dado que as outras placas parecem resultar, veja-se a da relva por exemplo. Há muito poucas pessoas que depois de avisadas, pisam a relva. Teríamos apenas de nos preocupar com os iliteratos. Nada que a cara do Pinóquio com um traço diagonal vermelho em cima não resolvesse. Existem já tantas plaquinhas dessas: “Proibido fumar”, “Proibido nadar no rio”, como se eu fosse tentar nadar em terra, ou umas mais incomuns, como “Proibido mascar pastilha elástica”, que vi uma vez em Singapura, ou “Proibido cuspir para o chão”, o que acho absolutamente justo, dado que também não vemos o chão a cuspir para as pessoas. À porta de todos os centros comerciais em Abu Dhabi, nos UAE, pode ler-se “Proibidas as manifestações de afecto” (curiosamente nunca vi um que dissesse “Proibido agredir”) ou aquelas placas que dizem “Proibido urinar no elevador”. Esta confesso que me fez parar e ler aquilo duas vezes. Mas que sinal de proibição mais estranho, e claro, lido e feito: apeteceu-me fazer xixi. Seria uma coisa que aconteceria assim tantas vezes para que tivessem de a proibir? Seria comum ouvir-se um “Vou só ali ao elevador fazer xixi e volto já”? Como hoje bebi muita água vou com certeza até ao décimo sétimo-andar. Num dia meu normal, iria só até ao terceiro andar. E será que essas pessoas que fazem xixi nos elevadores são as mesmas que vão falar ao telefone para as casa-de-banho públicas ou para as salas do cinema? “Proibido arrancar flores do jardim”, também vi essa em Abu Dhabi. São pessoas românticas, estas que vivem nos Emirados Árabes. Não dão a mão em público mas estão constantemente a oferecer flores. É certo que algumas dessas placas, por mais estranhas que sejam, devem ser indispensáveis em alguns locais ou para certas pessoas. E daí eu pensar que um “Proibido mentir” se calhar traria resultados positivos. Imagine, uma placa destas em cafés, em bares, em restaurantes. “Proibido mentir” nos parques de estacionamento, nos jardins, nas escolas, no Parlamento (meu Deus, no Parlamento!), nas esquadras de Polícia, até nas Igrejas. Principalmente nas Igrejas, e logo à porta. Ou conselhos de segurança do género: “Se conduzir não minta”. Deste modo, reduzíamos também os acidentes de viação, dado que o uso do telemóvel enquanto se conduz é provavelmente, ao lado da embriaguez, uma das maiores causas de morte na estrada. Sei lá, pelo menos teríamos lugares no mundo em que podíamos estar em segurança, já que confiar uns nos outros, depois de todas as mentiras que já disse e ouvi, está um bocadinho ultrapassado e parece-me só essa ideia ela própria já uma ilusão. Pelo menos admito, já menti umas quantas vezes e a verdade é que às vezes quase que percebo porque é que todos nós mentimos. É que uma mentira pode parecer em alguns casos quase uma obra de caridade. Quase um ato de boa vontade, de bom coração. Mas não é, e devia ser proibido. Seja qual for a motivação, todos ganhamos com a verdade, ainda que por vezes a longo prazo. Dizer a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade é simples, requer menos trabalho, menos preocupação, menos capacidade de memória, e ninguém perde tempo com desilusões. E tenho boas notícias para todos nós mentirosos. Se dissermos a verdade, o mundo não vai acabar, não nascem gémeos siameses, os tomates da quinta da D. Alice não vão de repente apodrecer, a gravidade da Terra não desaparece, não teremos 7 anos de azar, e as estrelas não morrem mais depressa. Dizer a verdade não faz crescer borbulhas na cara de ninguém, nem pelos nos mamilos, não causa cancro no pulmão, não provoca acidentes de viação, e não engravida ninguém. Dizer a verdade também não engorda. É uma coisa básica, descomplicada que liberta e rejuvenesce, e que o vai tornar mais bonito, de dentro para fora. Exercite a verdade. Há que a colocar em prática, tirá-la dos livros, sacudir-lhe o mofo, e se for complicado ao início por causa dos maus hábitos, comece por exercitá-la apenas dez minutos por dia. Não poderá dizer uma única mentira, seja ela branca, ou preta, seja ela amarela às bolinhas. E está a fazer batota se estiver sozinho na cama. Se bem que também seria um exercício útil para as pessoas que para além de mentirem aos outros também gostam de mentir a si próprias. Experimente. Na semana seguinte passa para os quinze minutos sem mentiras, e vai por aí fora, de forma corajosa e determinada, impulsionado pelas verdadeiras boas intenções, daquelas boas intenções que não vão encher infernos, até chegar a todas as horas do dia em que passa acordado. Parece-me mais interessante para todos nós um sinal que proíba as pessoas de mentir, do que um que proíba de mascar chiclete. Eu diria mesmo que o “Proibido mentir” é tão necessário e urgente quanto o sinal de “Proibido fumar”. É que as duas coisas fazem igualmente mal.

Autor: Zufia

Blogger, copywriter, cabin crew, wanna-be translator, wanna-be screenwriter, wanna-be singer, wanna-be psychologist, very nice person but clearly suffering from alternating attention.

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